Rebates vs. taxas transparentes: o que é melhor para investidores?

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Por Jair Lemes

Um problema importante no setor de Investimentos é que as taxas são complexas e diferentes plataformas usam estruturas diferentes. Muitos investidores não entendem quanto estão pagando, quem estão pagando e o que estão pagando. Isso torna muito difícil identificar o “preço”, comparar cobranças e entender onde está a lealdade do agente autônomo, distribuidor, administrador ou gestor de investimentos. Um bom ponto de partida é, para os investidores, entenderem quem está ganhando uma taxa, por que eles estão ganhando uma taxa e qual o impacto da taxa no desempenho do investimento.

Faz anos que existe um movimento no setor de investimentos internacional em direção a modalidades de investimento com taxas mais transparentes. Isso é bem-vindo na medida em que melhora a transparência.  No entanto, em vez de introduzir novas classes de fundos quando não houver um claro benefício de custo, certamente seria mais simples melhorar a divulgação para deixar claro para os investidores o entendimento dos vários componentes de suas taxas. Os defensores da taxa transparente argumentam que a taxa transparente traz clareza e reduz as oportunidades de abuso.

Em vez de tentar argumentar a favor ou contra essas estruturas, continuaremos avaliando o que é do melhor interesse de clientes em diferentes cenários.

Como funciona a estrutura do rebate?

Uma parte da taxa de administração que os administradores de fundos cobram é para pagar pela gestão. Muitos gestores de fundos repassam toda ou parte dessa taxa aos distribuidores do fundo que são pagos para comercializar o fundo.

Em alguns casos, gestores de fundos (fundos que investem em outros fundos) e de carteiras administradas cobram rebates do fundo investido para si ou para seus investidores.  Eles cobram diretamente ou através de empresas do mesmo grupo econômico.  Ao cobrar rebates em benefício dos investidores, a precificação de um fundo é distorcida, mas não prejudica o investidor, já a cobrança de rebates para o gestor, sem a divulgação adequada, aos seus investidores pode representar conflito de interesse (o gestor investe porque o fundo é bom ou porque está sendo remunerado pelo investido?) e não permite ao investidor final identificar se seus prestadores de serviço são renumerados adequadamente e de forma suficiente para prestar um bom serviço.

Já a prática de rebates entre os agentes autônomos e distribuidores que às vezes se denominam como “assessores” é muito mais comum e é a forma em que eles são remunerados.  As taxas cobradas por estes agentes são legítimas, mas os investidores precisam entender quais são estas taxas e se os incentivos estão alinhados às suas necessidades.

Um conflito de interesse muito comum se apresenta quando alguém que lhe vende oportunidades de investimento (agente autônomo ou distribuidor), mas também se posiciona como “assessor” para lhe ajudar a escolher seus investimentos ou planejar sua carteira de investimentos. Ou ele te vende algo ou ele lhe assessora para comprar algo, pois a mesma pessoa fazendo as duas coisas pode ser como deixar uma raposa cuidando do galinheiro e esperar que a raposa seja bem intencionada.

O investidor, na opinião deste profissional, deve preferencialmente optar por agentes independentes para estas funções, sem a prática de rebates, mas se houver rebates que os mesmos sejam divulgados de forma transparente ao investidor para que ele possa, por conta própria, avaliar o alinhamento de interesses e se aqueles realmente trabalhando em seu benefício são renumerados adequadamente.

Quando as taxas de administração, distribuição, consultoria e distribuição são segregadas e claramente divulgadas, os rebates são uma boa maneira para os gestores reduzirem o custo total para os clientes, pois efetivamente tornam a ‘fatia’ do total das taxas do gestor mais negociável para os compradores em massa. O bom gestor sempre tenta educar seus clientes e divulgar taxas de administração, rebates e descontos de uma maneira fácil de entender.

O pagamento de rebates pode ser opaco e desfocar as linhas entre os diferentes tipos de taxas, dificultando a obtenção do melhor negócio para os clientes. Existem até casos em que a estrutura de rebates foi abusada, prejudicando os clientes, inflando o custo de administração ou para financiar a distribuição dos investimentos. Isso leva a um debate no setor sobre se os rebates deveriam ou não ser permitidos ou se as taxas deveriam simplesmente ser cobradas dos clientes através de suas contas de suas contas de tal forma que possam enxergar como toda a estrutura é remunerada.

E quanto às taxas transparentes?

Uma estrutura de taxas transparentes segrega claramente as diferentes taxas aplicáveis. Com taxas transparentes, as taxas de gestão de fundos são pagas ao gestor do fundo, as taxas de administração ao administrador, as taxas de consultoria ao consultor e as taxas de distribuição aos distribuidores e agentes autônomos. Os defensores de taxas transparentes argumentam que isso é do melhor interesse dos clientes, pois é transparente e fácil de entender. Os clientes podem ver e comparar quanto estão pagando a cada parte.

Taxas transparentes não se traduzem diretamente em custos mais baixos para o cliente e, embora a divulgação de taxas seja diferente, ela pode não ser necessariamente mais eficaz. Para empresas em que os diferentes tipos de taxas foram adequadamente segregados e divulgados no passado, a taxa transparente pode ser simplesmente o caso de fatiar o mesmo tamanho, de maneiras diferentes.  As implicações tributárias podem, em certos cenários, resultar em uma carga tributária mais alta sobre o investimento do que no passado. E se os provedores de fundos são menos livres para responder às pressões de compra, a competição por investidores pode ser menos acirrada e o total de taxas cobradas pode acabar sendo maior.

Que tipo de plataforma você deve escolher?

O que mais importa não é a estrutura da plataforma ou do fundo, mas o custo total que o investidor está pagando e o valor que recebe em troca. Parte do valor pode estar na forma de taxas mais baixas de administração de fundos através do poder de compra em massa das plataformas. No final do dia, quanto menor a carga total, melhor?  Não necessariamente, pois o investidor deve ter certeza de que os prestadores de serviços essenciais são remunerados de forma adequada. A outra coisa que realmente importa é a transparência – se você não consegue ver e calcular com facilidade o que está sendo pago pela administração, pela gestão e distribuição de fundos e pelo conselho, provavelmente você está pagando mais do que você pensa. Uma plataforma transparente, com divulgação clara, deve ser preferível a uma opaca que diz, por exemplo, que você consegue investir gratuitamente ou oferece assessoria gratuita.  Que empresa de investimentos conseguiria se sustentar ao longo do tempo desta forma?

 

Jair Lemes assina a coluna “Capital Inteligente”, no Inova360, parceiro do R7. É especialista em investimentos e finanças, com certificação CFA, está à frente da Brava Capital e é comentarista do programa de TV Inova360.

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