O desemprego pós-transformação digital

separator

Por Márcio Bueno

O que o trabalho representa pra você?

Depende quem seja o seu interlocutor a resposta será diferente.

Para o empresário com propósito, o caminho para mudar o mundo ganhando dinheiro.

Para o empresário sem propósito, uma forma de ganhar dinheiro mudando o mundo (ou não).

Existe um grupo que diz que é um mal necessário, outro que ama o que faz, que é vocacional, e para a imensa maioria das pessoas, uma forma de subsistência, o ganha-pão.

Mas existe um denominador comum entre todos eles, consciente ou inconscientemente, todos sentem realizados ao ver o resultado de seu trabalho e esforço.

Não importa se a motivação é a necessidade ou a paixão, todos, sem exceção, ao realizar um bom trabalho se sentem bem consigo mesmo.

Conheço pessoas que maldizem o domingo a noite, e reclamam a cada manhã de seu trabalho, de seu chefe, de seus colegas, porém quando o perdem… é um drama.

O trabalho tem um papel fundamental, tanto socialmente como em nossa estrutura mental, não somente pelo fator econômico, mas pela dignidade que outorga a quem o realiza.

Do outro lado da mesa, o lado do empregador, a palavra de ordem nas organizações é otimizar recursos e automatizar, pensando em redução de custos.

Há alguns meses, eu recebi em vários grupos de WhatsApp que participo um vídeo de uma fábrica cervejeira totalmente automatizada.

Em um extremo os apaixonados por tecnologia exaltando as maravilhas da robótica e dizendo que este é o futuro, no outro, sindicalistas abominando a eliminação de mão de obra.

Desde o ponto de vista da Tecno-Humanização, consideramos que nenhuma empresa, hoje em dia, sobreviveria sem tecnologia, porém, nenhuma sociedade existiria sem pessoas.

As empresas devem ser conscientes disso, pensar somente na redução de custos é uma visão míope, de curto prazo e chega a ser irresponsável.

Vamos extrapolar o exemplo desta fábrica a todas as empresas que buscam a tão sonhada otimização de recursos (levada ao extremo).

Pessoas sem trabalho não consomem!

Se automatizarmos todas as fábricas, teremos as empresas mais otimizadas do cemitério.

A empresa quebra porque não tem clientes. E as pessoas morrem de inanição porque não tem trabalho.

Desculpem-me a inocência, talvez eu tenha uma visão romântica (e utópica) do mundo, mas alguém pode me explicar como este modelo socioeconômico, criado por executivos “inteligentes”, se sustenta além do fechamento do ano fiscal?

Sinceramente, foge à minha compreensão que estes executivos não enxerguem como este modelo é autodestrutivo. Gera um desequilíbrio que simplesmente nos levaria ao caos.

Mas quem se importa com o próximo ano se o único que interessa é o fechamento deste ano fiscal? Melhor dizendo, o bônus se bater as metas este ano.

No seriado Designated Survivor (S2 Ep4), o presidente dos EUA pede a um grande empresário para reduzir o ritmo da automatização de suas fábricas. O motivo? Frear o desemprego.

O empresário diz, “isso vai me custar uma fortuna” e pergunta “e por quê eu faria isso?”

Mas o que mais me chamou a atenção foi a forma que utiliza para se autoconvencer que “isso é assim”.

“Sr. presidente, o futuro está chegando você querendo ou não, você pode tentar conter essa corrente, mas um dia a represa vai acabar rompendo”.

As vezes assumimos que as coisas vão acontecer independentemente de nossas ações, por geração espontânea, como forma de nos sentirmos melhor por fazer coisas das quais não nos orgulhamos.

É como dizer que, isso vai acontecer de qualquer forma, portanto, se eu não fizer outro fará, então faço eu.

Desculpem-me de novo, mas a destruição massiva de postos de trabalho, e o caos derivado da mesma, só vai acontecer se quisermos e fizermos com que aconteça. O que acontecerá no futuro é absolutamente consequência das decisões que tomemos hoje, e a responsabilidade é total e exclusivamente nossa.

A preocupação do presidente na serie é justa e também ocorre na vida real. Existem grupos de discussões, tanto na Europa como nos EUA, buscando alternativas para que o desemprego massivo que teremos não gere um caos social.

É muito comum que me peçam, em minhas palestras e treinamentos, minha visão sobre se as empresas devem automatizar as fábricas ou aplicar tecnologia para automatizar processos.

Automatização, sim!

Automatização total, não!

Até onde as empresas devem ir?

Onde está o limite?

Não existe receita pronta, cada empresa é uma empresa, cada ciclo produtivo é diferente assim como a cultura organizacional de cada organização.

Conheço empresas, como por exemplo a Sarah Oliver Handbags, que produzia bolsas de crochês com anciãos de casas de repouso americanas. Se levassem a produção à China ou a automatizassem conseguiriam reduzir o custo em mais de 60%, porém preferiam causar impacto positivo nos idosos locais, dando-lhes um trabalho e dignidade. Seus clientes reconheciam isso e compravam as bolsas mesmo sendo mais caros.

A Tecno-Humanização eleva o nível de consciência e humanização da empresa para que ela seja capaz de decidir onde coloca a sua barra.

De qualquer forma, isso ajuda, mas não evita o desemprego.

O segundo ponto é saber como tratar os casos de desligamento, inevitáveis do processo de transformação digital.

Existem muitas coisas que podem ser feitas. Criar ecossistemas produtivos para estas pessoas. Dar orientações, treinamentos e formação de diferentes tipos, mostrar que o mundo mudou (e muito), debater sobre o futuro das profissões, orientações sobre empreendedorismo e, principalmente, alertar que, daqui pra frente, muita gente não vai viver de um emprego e sim de seu talento conectado em rede.

Eu comecei este artigo perguntando o que o trabalho representa pra você?

Sou consciente da importância do trabalho e também das consequências pela falta dele.

Mas eu não me preocupo pelo emprego, e sim com o ser humano que está por trás dele.

 

Marcio Bueno assina a coluna “Tecno-Humanização”, no Inova360, parceiro do portal R7. É Tecno-Humanista, fundador da BE&SK (www.bensk.net) e criador do conceito de Tecno-Humanização.

[email protected]

linkedin.com/in/marcio-luiz-bueno-de-melo-∴-94a7066