Finge que me engana que eu finjo que acredito: os dez indícios da inovação de fachada!

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Por Juliana Bernardo

Com a transformação que estamos vivendo no mundo e nos negócios, falar sobre inovação virou o “pretinho básico” para as organizações, mas, de fato, elas estão preparadas para inovar?

Seja conversando com colegas de profissão, nas leituras mais sinceras e ácidas sobre o tema, algo comum fica claro: existem muitas empresas falando mais do que fazendo, reagindo mais do que agindo, gritando alto no palco e pouco investindo no tema.

O medo de ficar para trás, de ser engolido por uma startup de jovens de 18 anos com poderosos investimentos anjo (ou não), tem feito muitas empresas consolidadas no mercado clamarem por uma atmosfera mais inovadora. O grande problema é que muitos empreendedores ainda não se deram conta de que a inovação tem que ser patrocinada e ela começa pelos donos, sócios e executivos.

Quando eu digo começa, mais um erro vem à tona, não é começar pela vontade de ter a inovação gerando lucro para empresa, e sim entendendo e comprando a ideia que a inovação é tema central de qualquer organização que compreende que a palavra de ordem é desaprender para aprender e se reinventar constantemente, pensando todos os dias como criar até mesmo o concorrente ou substituo do seu próprio produto ou serviço.

É um mito dizer que conseguimos inovação sem abandonar os antigos modelos. É preciso estar realmente aberto às novas ideias para que a inovação possa acontecer de forma fluida dentro das empresas. Assim como é ilusório dizer que alguém inova sozinho, porque, para falar sobre inovação, vamos sempre falar sobre redes e cultura, e é ali, no fragmentado, que conseguimos dar um start mínimo para tratar de problemas complexos. E como de nada adiantam provocações para a mudança quando não se está disposto a mudar, vamos entender abaixo porque só pensar em inovação não é suficiente.

Conheça dez erros comuns das organizações que FAZEM INOVAÇÃO DE FACHADA:

1- ESPERAM RESULTADOS RÁPIDOS DA INOVAÇÃO

Construir, de fato, uma cultura inovadora requer tempo, assim como clareza de papéis, lideranças mais flexíveis, criatividade, investimento em pessoas e, por vezes, espaço físico de acordo. Tudo isso não se constrói do dia para noite, como então esperar resultados de inovação sempre medidos em ROI (retorno sobre o investimento) e de curto prazo?

Lembre-se que o foco no curto prazo está correlacionado diretamente de forma negativa com a inovação, e um caminho é entender que tudo, ao seu tempo, gerando valor gradativamente, já é um ótimo indicador de resultado.

2- USAM E ABUSAM DE COMANDO, CONTROLE E CENTRALIZAÇÃO

Para inovar precisamos de ambientes dinâmicos e pouco burocráticos, por isso o processo de decisão precisa ser redistribuído. Isso quer dizer que quanto mais poder na mão de mais pessoas que possam decidir, o fluxo acontece de forma mais rápida e leve; a famosa frase “erre rápido e conserte rápido” só se torna premissa se o ambiente permite a agilidade.

Fazendo uma analogia rápida com um jogador de basquete, quando um clube contrata um técnico, que é visto como o cérebro da equipe, é com o objetivo que ele arme a estratégia. Imagine então se o presidente do time quiser opinar em todas as diretrizes e planos desse técnico, essa posição passa a ser meramente figurativa, compreende? Deixe a equipe atuar.

3- NÃO COMPREENDEM QUE AS MELHORES IDEIAS SAEM DA BASE

Certa vez Steve Jobs disse algo que casa perfeitamente com o tema da inovação: “Não faz sentido contratar pessoas inteligentes e dizer a elas o que elas devem fazer; nós contratamos pessoas inteligentes para que elas possam nos dizer o que fazer”.

Apenas dando espaço para ideias surgirem do todo é que se faz um bom estoque de ideias relevantes para que um percentual possa ser executado e aplicado no dia a dia. Dê voz.

4 – NÃO TÊM UMA GESTÃO DE IDEIAS COLABORATIVA

Apenas dar voz, mas não ter gestão de tudo isso, pode tornar o processo ainda mais lento. Hoje existem muitas ferramentas e métodos para gestão de ideia e que aumentam as taxas de sucesso do processo de inovação.

Um bom exemplo disso é a empresa GE, a gigante e lucrativa General Eletrics, que começou sua gestão de ideias a pedido do então CEO Jack Welch, com uma simples caixa física onde eram depositadas as ideias, que permitia os colaboradores participarem de todo processo de inovação da companhia.

5 – NÃO COLOCAM A INOVAÇÃO COMO CENTRO DO NEGÓCIO E DAS AGENDAS

Recentemente, Ram Charan, um indiano de mais de 80 anos, mentor e consultor dos maiores executivos e empresas do planeta, confirmou algo que eu tanto valorizo: “A pergunta ‘o que há de novo?’ precisa estar em todas as reuniões e discussões, todos os dias”. Foi assim que ele reforçou seu maior conselho a esses executivos, de que só vamos pensar a inovação se ela fizer parte da rotina, se ela for vista como ponto alto das discussões indispensáveis a qualquer cargo na organização.

Esse é o tipo de mindset (pensamento) que precisa permear as empresas. Se ele não começar de cima, dificilmente terá sucesso na estratégia de inovação. As empresas podem até ter uma cultura de inovação emergindo da base, mas, sem apoio, recursos, patrocínio e investimento, dificilmente ela vai sair do papel, e é isso que diferencia ideia de inovação real, a que gera valor para o mercado, da de fachada.

É necessário reconhecer que a inovação não virá se lá no topo não estiver claro que tudo que já moldou nosso pensamento econômico e social se tornou obsoleto e que é urgente a necessidade de criar novos modelos de pensamento, precisando abrir mão do que já conhecemos, reconhecemos e existe, e  bancar tudo isso.

Para saber se uma empresa coloca a inovação no centro, questione quanto espaço tem o assunto na agenda dos altos executivos, quantos comitês para avaliar e selecionar ideias para investir existem hoje e qual o papel que a inovação ocupa em suas leituras e estudos todos os dias?

6- NÃO INVESTIR EM TREINAMENTO E DESENVOLVIMENTO DOS TIMES

Se existem novas tecnologias e novos padrões de comportamento sendo valorizados, quanto as empresas estão investindo para que seus times os conheçam? O medo de os colaboradores saírem da empresa e levarem junto o conhecimento impede muitas empresas de enxergarem o óbvio: sem conhecimento novo, sem ideias novas.

7- TER MEDO DE COLOCAR DINHEIRO EM ALGO INTANGÍVEL

Isso é uma mega barreira nas organizações, em muitas delas a inovação ainda anda com budget conforme a demanda e, por vezes, limitada. Coloca-se mais dinheiro em Marketing e Publicidade do que dentro de casa.

É certo que existem também formas de inovar sem custos, e que não acontece inovação exclusivamente dos laboratórios e de milhões em jogo. Porém, isso limita e muito as chances de testar, aprender, errar, recomeçar. Investimento em inovação é um passo essencial para sucesso das iniciativas.

A real é que, se não investir agora, dificilmente a organização irá colher bons frutos nesses próximos anos.

8-  TEMER O CONFLITO

A inovação leva sempre a dilemas e conflitos, mas é também no caos que, por vezes, temos a alavanca para as mudanças.

O conflito é parte de todo processo de inovação e, se a experiência for tratada como negativa, a ideia é tentar ressignificá-la por meio do diálogo, pois quando oferecemos espaço real para o debate, começamos a entender a positividade de conflitos que nos levam ao progresso.

9- OLHA APENAS PARA O CONCORRENTE, NÃO PARA O QUE EMERGE

Pode observar que, muitas das inovações ditas disruptivas para o mercado, nasceram a partir de um mesmo lugar ou padrões mentais já conhecidos. Por isso existe um termo que diz “Uberização das coisas”, em razão dos muitos modelos semelhantes aplicados a negócios distintos, mas que seguem o padrão Uber de compartilhar e lucrar sem possuir.

Mas há um campo muito maior para a inovação se permitirmos que ela nasça do que emerge, e materiais sobre a TEORIA U (que vem da palavra Uber) podem oferecer caminhos de como trabalhar desta forma para tentar melhores resultados na inovação.

Cabe às organizações a decisão de serem pioneiras ou espectadoras nesse mundo de eterna transformação.

10 – TENDER A ACHAR CULPADOS E RESPONSÁVEIS PELO FRACASSO

“Mas me digam, de quem é a culpa? ”

Ou a organização é aberta ao erro, ou você vai ouvir bastante essa frase por aí.

Neste momento, fica claro o impeditivo para inovação, ela nasce de uma cultura aberta ao erro, na qual o mais importante, quando as coisas não dão certo, é dividir as percepções, pegar a equipe no colo, agradecer a coragem e tentativa a quem deu e também a quem executou aquela ideia, só assim existe uma chance para reflexão que traga aprendizado.

Por fim, fica a mensagem de que não basta dizer que a partir de amanhã a sua empresa se tornará inovadora se ela nunca foi realmente inovadora. Não basta querer ver a inovação cair do céu, o trabalho é possível, comece trabalhando na cultura, saiba que o processo não é rápido, e cuidado para não ser lento demais. Esqueça a palavra medo e lembre todo dia do poder da palavra arriscar, assim começamos a criar um ambiente propício à inovação, que sai das paredes, vem pro jogo e faz gol.

Obrigada pela leitura e até a próxima.

Juliana Bernardo assina a coluna “Inovação no Mundo Real”, no Inova360, parceiro do portal R7. Formada em Administração de Empresas, com especializações em Liderança Transformadora pela LAJE e em Comunicação, Marketing e TI pela USP, ela é líder em Gestão de Inovação no BWG Group Brasil.

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