Criamos modelos absurdos baseados nos princípios da singularidade

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Por Marcio Bueno

Um bom dia 4.0 para você! Você quer um café disruptivo ou exponencial? Essas frases pareceram estúpidas? Pois é, você tem razão, elas são mesmo. Você achou que elas te fizeram perder tempo? É assim que eu me sinto quando leio a quantidade de bobagens e modismos que as pessoas seguem sem saber o porquê estão fazendo.

Vivemos em uma era rodeados de tecnologias e modelos de negócios disruptivos e exponenciais e, segundo especialistas, isso nos levará à singularidade. O conceito da singularidade foi emprestado da física e é usado para descrever fenômenos tão extremos que as equações não são capazes de descrever e levam as leis da física ao absurdo. Talvez o exemplo mais significativo que ilustre este fenômeno seja o buraco negro.

Peter H. Diamandis, vendo como se comportava as tecnologias e startups no Vale do Silício, com crescimentos exponenciais criou a Singularity University, uma das mais prestigiosas escolas de inovação do mundo atualmente.

Por lá passam muitos gurus, dando palestras e cursos imersivos para milhares de pessoas de todo o mundo, onde transmitem que entre 2010 e 2140 a humanidade será levada a um estágio de singularidade, onde as tecnologias evoluem cada vez mais aceleradamente, se integram uma com as outras, causam impacto e transformam rapidamente a realidade. Segundo os especialistas, não é possível prever o que acontecerá ao chegarmos no momento da singularidade.

Baseado nos princípios da singularidade, tomando a previsão dos gurus como certa e inevitável, desenvolvemos um modelo de negócio tão absurdo como a própria singularidade. Acredito que a nossa forma de atuar nos levará ao caos muito antes que a singularidade em si.

Seremos capazes de gerar o nosso próprio buraco negro pela quantidade de bobagens que fazemos sem perceber, somente por seguir a corrente. Não estou dizendo com isso que não devemos ser conscientes da exponencialidade dos negócios e das tecnologias. Muito menos que fechemos os olhos à nova realidade, positiva e negativa, que elas nos proporcionam.

O que digo é que busquemos o equilíbrio. Alguém falou, seja quem for, que este é o caminho, todos vamos como cordeirinhos sem questionar. Querem exemplos? Estamos orientando os jovens as construírem startups sob o mantra de que uma empresa deve curar a “dor do cliente”.

Isso significa que se uma empresa vive de curar a dor do cliente, o que ela deseja com todas as suas forças quando se levanta pelas manhãs?  Que o cliente tenha dor! E se ele não tem? Nós criamos! Chamamos o departamento de marketing e criamos uma campanha para gerar dor no cliente, porque disso vivemos, de curar a dor que, em muitos casos, eu mesmo causei.

Por exemplo, na Tecno-Humanização, isso não é aceitável. Uma empresa deve aliviar a dor do cliente, mas deve existir para curar a causa da dor, isso é muito mais consciente e humanizado.

Outro ponto que me chama a atenção é o modismo com o qual eu comecei o artigo, a indústria 4.0. Todo mundo fala disso o tempo todo, o que por um lado é bom, mas quando vejo o estudo Indústria 2027 feito pelo CNI (Confederação Nacional da Indústria), a MEI e o Instituto Euvaldo Lodi, os dados mostram que somente 1,7% das indústrias atuam no padrão 4.0 e que existe a intenção de somente 21% dos empresários atuarem neste padrão nos próximos dez anos (o que é uma eternidade).

Então eu me pergunto, será que as empresas estão falando de indústria 4.0 porque têm real interesse em adotá-los ou querem parecer atualizadas, mas continuam fazendo o mesmo?

Muita gente confunde agilidade e aceleração com pressa

Exigimos que tudo seja urgente, com a desculpa da exponencialidade, mas nós mesmos não somos. Estamos adestrando, infelizmente é essa palavra, jovens empreendedores a construir pitches de três minutos para explicar o seu modelo de negócio. E sabem por quê?

Porque alguém disse que é o tempo que um investidor (que se chama de anjo) está disposto a dedicar seu precioso tempo para ouvir o que um jovem tem a dizer, e baseado nestes 180 segundos, decidir se compra o seu sonho ou não.

É óbvio que quando estamos diante da oportunidade de apresentar nosso negócio a um investidor, não podemos ser prolixos. A capacidade de síntese é uma característica de pessoas que se comunicam bem, se expressam bem e normalmente são eficientes. Todas elas são competências muito valorizadas no mundo dos negócios e na vida.

Mas os cursos de empreendedorismo não ensinam isso, simplesmente exigem que o pitch tenha três minutos, porque “é assim que se faz no Vale do Silício”.  Tem mentor de empreendedorismo mandando seus mentorados fazerem curso com fono, para aprenderem a respirar e vocalizar, e assim cumprir o pitch, quando deveriam estar questionando se isso faz sentido ou não.

Isso é absurdo e chega a ser cruel, mas a máquina que criamos é assim. Com o objetivo de colocar um pouco de bom-senso neste processo de aceleração desmedido, existem alguns movimentos que surgiram nos EUA e muitas startups que começam a rejeitar o modelo de crescimento acelerado.

Isso está crescendo tão rápido (de forma acelerada e exponencial) que a Zebras Unite já tem 40 filiais e 1.200 membros em todo o mundo. Esse crescimento chamou a atenção dos investidores e já tem algumas Venture Capitals oferecendo um modelo de crescimento e remuneração menos agressivo.

Agilidade e aceleração não podem ser confundidas com pressa. São coisas muito diferentes e, ao crescer com pressa, deixamos coisas pelo caminho, aprendizados, ajustes no produto e no negócio. Outro dia vi uma entrevista do  Oswaldo Montenegro que dizia que se arrepende de algumas coisas em sua carreira, e uma delas é que, pela sua ansiedade patológica, ter feito algumas coisas com pressa e não ter dado o acabamento que aquilo merecia.

Será que não é possível correr para acompanhar o ritmo global sem atropelar? Eu acho que sim. Por certo, há quatro parágrafos atrás, eu teria terminado meu tempo de apresentação a um investidor anjo.

 

Marcio Bueno assina a coluna “Tecno-Humanização”, no Inova360, parceiro do portal R7. É Tecno-Humanista, fundador da BE&SK (www.bensk.net) e criador do conceito de Tecno-Humanização.

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