A tecnologia prejudica a memória e o raciocínio?

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Por Marcio Bueno

Qual o número de telefone do seu filho?

Há 20 anos a resposta seria automática.

E o número dos seus documentos de identificação, as suas senhas, o endereço do seu melhor amigo?

Mas para que ocupar espaço em nossa cabeça com informações que podem ser armazenadas em nossos celulares?

Devemos guardar a informação estática na tecnologia e utilizar nosso cérebro para coisas mais produtivas.

Este raciocínio, que na verdade é uma justificativa para a preguiça mental, traz consigo uma armadilha perigosíssima.

O (mal) uso da tecnologia pode prejudicar a nossa memória, e isso é o menor dos males que ela pode nos causar.

Eu tive um chefe que eu admirava muito pela sua memória e rapidez de raciocínio. Eu era programador de umasoftware-house e quando tínhamos que fazer um programa, perguntávamos a ele se havia, entre os milhares de programas, algum que poderia servir de base.

O nível de detalhe da resposta era absurdo.

Ele dizia: “Temos sim, procura no cliente tal, sistema tal, programa tal”, e às vezes dizia, mais ou menos, onde a rotina que precisávamos estava, considerando que os programas tinham centenas ou até milhares de linhas de código.

Era incrível!

Eu comecei prestar atenção mais atenção em seus hábitos. Um dia o vi estacionando o carro pela manhã e reparei que ele ficou olhando atentamente aos carros que estavam estacionados na frente e atrás.

Quando ele chegou no escritório eu perguntei, o que você está olhando?

E ele me respondeu:

“Eu memorizo marca, modelo, cor e placa dos carros estacionados ao lado quando eu chego e verifico se são os mesmos quando eu vou embora.”

Este comportamento pode parecer geek se o analisamos superficialmente. A informação em si é inútil, mas o benefício deste exercício é sensacional.

A memória, a lógica, o raciocínio, podem e devem ser treinados diariamente.No mercado, existem empresas que desenvolveram metodologias com atividades e jogos especificamente para isso.

Quem me conhece sabe que eu gosto muito de música e tenho como hobby colecionar discos de vinil.

Não que eu seja um purista.Também ouço CD, mp3 ou qualquer outra mídia, porém, tenho resistido bravamente às plataformas de streaming. Pode parecer um contra senso, já que, por um preço muito menor ao que eu pago pelos meus discos, eu teria milhões de músicas.

A questão não está no preço, nem na vasta oferta de conteúdo, está em que eu não quero me acostumar que um algoritmo escolha a próxima música que eu vou ouvir, baseado em meu histórico.

Começamos ouvindo músicas recomendadas por um software, entramos em modo “piloto automático” e acabamos sem saber o nome de nenhuma música ou banda.

Prefiro exercitar minha memória e quando eu alguém me mostrar uma música e me perguntar: “Você sabe quem canta?”

Encho o peito e digo, a banda, a música, o nome do disco, e em alguns casos, o número da faixa e o lado.

Quem mora em grandes capitais sabe a importância de utilizar aplicativos de GPS online, não somente para nos levar ao nosso destino, mas principalmente para nos livrar dos intermináveis congestionamentos.Essa comodidade tem gerado um problema, estamos deixando de prestar atenção onde vamos, os trajetos, nomes de ruas, etc.

E qual o problema?

Os taxistas britânicos, para receber a licença, eram obrigados a decorar os nomes e direções de todas as ruas. A prova consistia em que o taxista recebia um trajeto e ele tinha que, oralmente, dizer todo o trajeto que deveria fazer para levar um passageiro da origem ao destino, deixando o passageiro do lado certo da rua.

Por conta desta exigência, os taxistas britânicos têm o hipocampo, estrutura relacionada à memoria e a navegação espacial, muito mais desenvolvida que os motoristas não profissionais.

Recentemente, um estudo realizado pela Scientific American mostrou que, quando um taxista realiza um trajeto por um local novo, desconhecido, aumenta a atividade no hipocampo e inclusive forma novas conexões neuronais.Porém, quando utiliza o GPS a atividade baixa, e como o tempo, chega a diminuir de tamanho o hipocampo.

Mas o uso da agenda do celular e do GPS não são os principais vilões. A neurocientista Maryanne Wolf, uma pesquisadora da Universidade da Califórnia em Los Angeles (UCLA), mostra que muita gente, depois de muito tempo em redes sociais, lendo textos de 140 caracteres máximo, já não conseguem ler um texto longo e, o que pior, assimilar e interpretar o que se lê.

No início da minha carreira executiva, me fazia sentir importante receber centenas de e-mails ao dia. Pasmem, mas houve um tempo que era símbolo de status dizer a quantidade de e-mails recebidos, mas, com viagens e reuniões, era difícil responder todos com qualidade. Então, comecei a utilizar a expressão“ler em diagonal”.

Segundo Wolf, em seu livro O Cérebro no Mundo Digital – Os desafios da leitura na nossa era, o impacto não é somente nos detalhes que se perde, mas afeta a nossa tomada de decisão.

A leitura não é uma habilidade natural, não há nenhum circuito genético para isso. Portanto, temos que desenvolvê-la e um dos benefícios, além do conteúdo em si, é criar sinapses e conexões com diferentes sentidos.

Uma meta-análise feita por pesquisadores da Espanha e Israel, com mais de 170.000 mil pessoas na Europa, identificou, embora de forma não conclusiva, que a leitura em telas e meios digitais não favorecem as habilidades de compreensão, e as leituras online são mais rasas.

Ou seja, não basta ler, o ideal é ler em papel.

Leituras rápidas, superficiais, não alocam o tempo de processamento cognitivo suficiente para o pensamento crítico.

Sendo assim, podemos concluir que não dedicar tempo à leitura, pode custar muito caro.

Você está disposto a pagar esse preço?

Marcio Bueno assina a coluna “Tecno-Humanização”, no Inova360, parceiro do portal R7. É Tecno-Humanista, fundador da BE&SK (www.bensk.net) e criador do conceito de Tecno-Humanização.

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